Infernos

maragataba

Foi num dia qualquer do ano de 1992 que senti pela primeira vez a sensação de morte iminente. Meu coração vai parar agora!! Vou morrer!! Como será? Sentirei dor, angústia, aflição? Sentirei… futuro do presente. Não! Não “sentirei”. Já estava sentindo quando tinha medo de sentir. E sentia dor, angústia e aflição. Sinto ainda.

A sensação de morte iminente me acompanha por 26 anos. Dias mais, outros menos. Freudistas e Junguistas, alopaticistas, homeopaticistas e positivistas, ao inferno todos!! Busco minhas culpas para entregar a culpa, alguma culpa há de existir.

Como ser uma pessoa melhor? Como agradar a todos, inclusive a mim? Como não sentir dor? Como amar? Como odiar amando e como odiar a si mesmo quando se ama quem nos ama, mas se odeia o ódio de se sentir amado (talvez odiado)? Parece confuso tudo isso, mas é pura lucidez! É o preço por… O preço por… Por? Afinal, por que estou pagando tão caro para viver?

Infernos são abastecidos por culpas. Culpas são sentidas por quem merece. Quem merece culpa, não precisa errar. Sua vida já é um erro. Escapou ao controle. Uma ejaculação imprevista. Uma gozada frustrada. E pronto! Temos uma vida que não deveria ter existido e a culpa por todos os problemas da vida, problemas infernais, hão de angustiar quem nem sequer sabe como errar direito, como matar e fazer sofrer, como bem errar.

Aos infernos culpas! Aos infernos gente boa a contrabalançar suas culpas! E mulheres… Seres maternos, mães de culpas. Tanto prazer com tantas mulheres, tanto gozo e alegria, tanto sonho e esperança, tanto carinho e felicidade. Haveria prazer sem culpa? Aos infernos, mães e filhas!

Sou apenas cabeça, tronco e membros. Um corpo, nada mais. Esse corpo caótico, de alma ausente, dá prazer, sem culpa. Mas se minha alma dele se acerca, o destrói, e destrói outras almas instando por corpos de puro prazer. E torna e entorna solidão, dor e desafeto quando se vai, deixando nada mais que um corpo sem alma cheio de mágoas. Corpo maculado, irritado, aflito, abrigado num inferno de boas intenções.

E sinto que ele vai morrer agora. Sentirei dor? Já sinto. Morro todos os dias para renascer num abismo de culpas, erros e prazeres. Infernos. Infernos onde reinam demônios do bem, dançando ao redor de minha alma para, num passo mágico de tango, numa rasteira improvável, lançar meu corpo à fogueira da dor e bailar ao sabor das culpas com ela. E gozar!

 

 

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